segunda-feira, 10 de agosto de 2015


Oração internacional dos animais
Autor ignorado
Ó homem, nosso mais antigo irmão, subindo os mesmos degraus:
Que somos nós, senão minúsculas partículas do grane cosmo?
Nem sempre é o grande muito maior que o pequeno.
A ascensão é sempre áspera, difícil e lenta.
Não nos subjugue com violência e excesso de trabalho não nos permitindo assim experimentar a alegria de viver.
Que o sentimento de afinidade e de origem comum leve você a compreender que nós também sentimos fome e sede, dor e sofrimento, mágoas e frustrações tanto quanto você o pode.
Permita que possamos desfrutar, como você, dos inúmeros prazeres do mundo físico: ar, sol, regatos, prados, bosques...
Dá, nós lhe suplicamos, condições para que os diferentes órgãos do nosso corpo possam funcionar com harmonia e saúde.
Oxalá nós recebamos na velhice a recompensa da mansidão e do humilde espírito de serviço, amor e fidelidade que temos demonstrado especialmente que sejamos dispensados, tanto quanto possível, da dor da separação daqueles com quem temos convivido e, quando a fadiga, a velhice e a doença nos atingirem, permita que seja rápida nossa recuperação e indolor a nossa morte, como você desejaria para si e para os seus entes queridos.
Que o coração daqueles que tem domínio sobre nós seja abrandado pela compaixão; e nós não fracassaremos em devolver nossa gratidão, fidelidade e amor.
Que reconheçam que nós nos devotamos e compartilhamos das suas pesadas responsabilidades e que, alegremente tomaremos parte das mesmas, se nos derem em retribuição, boa alimentação, instrumentos de trabalho adequados, condições de serviço, abrigo condigno e descanso, de modo que possamos voltar ás nossas tarefas, cada dia, com renovado vigor.
Quem  conversem conosco algumas vezes e nos deem sua companhia, compreendendo que, afim de compartilharmos com suas vidas, temos muitas vezes de deixar de lado a sociedade de nossa própria espécie, nos libertando assim, do sofrimento causado pelo isolamento  e falta de companheiros.
Que sejamos incentivados a desenvolver nossas próprias faculdades ao  máximo, e eles possam ter a necessária paciência para nos guiar e orientar, de modos que possamos subir sempre e cada vez mais alto a Escada da Evolução, da mesma forma que vocês desejam á si próprios.
Ó Homem:
- Ouça esta oração silenciosa que sobe até você, das sombras dos matadouros e das armadilhas selvagens, dos laboratórios imperpetráveis e da escuridão das minas, de todas as partes do mundo, onde nos encontramos, compartilhando com você o árduo processo da existência.
E assim possam os abençoados agradecimentos da multidão incontável de criaturas grandes e pequenas, da terra, do mar e do ar, visitá-lo em seu sono e rodeá-lo, nesta hora em que você estiver colocando  seus pés sobre um novo limiar e passeando no Futuro Desconhecido.
Estas coisas pedimos em nome da Misericórdia, da Piedade, da Fraternidade, da Paz, do Amor, da Justiça e da Retidão!
ARQUIVO AMARO CASTRO CORVO – SANTOANDRE - MAIO1964

  

domingo, 9 de agosto de 2015

O BEIJO DO PAPAI
Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
E os heroicos nipões, calmos filhos do Oriente.
Em torno a Porto Arthur o cerco se apertava
Como um cinto de ferro e fogo, que fechava
As portas de cidade, a quem -valente- ousasse
Por ali penetrar, ou por ali passasse.

Da boca dos canhões, a morte a rir traiçoeira
Partia a cada instante. E na vez carreira
A vida ia ceifando aos míseros soldados
Tão desumanamente assim sacrificados.

Uma tarde, em que cessara de momento
Canhoneio, como a cobrar novo alento,
Junto à linha de fogo, uma adorável criança,
Sem mostra de temor e cheia de confiança,
Apareceu correndo...O olhar de quem procura
Ansiosa descobrir naquela massa escura
De uniformes e fumo, um rosto conhecido.
Risonho perfil de um semblante querido.

Ao vê-la, pergunta um japonês, um bravo,
Que como a língua pátria entendia a do eslavo.
Perguntou-lhe, tomando em suas mãos calosas,
As mãozinhas da criança, alva e acetinosas :
-Que desejas, pequena, que procuras em meio
Da tropa que aqui vês, exposta ao bombardeio ?
Quem és tu ?...De onde vens ?... Que desejas, menina ?

Meu nome, ela responde, eu lhe direi, é Lina.
Procuro o meu papai que há muito foi embora.
A muito não o vejo e desejava agora, vê-lo outra vez...
Para quê ? perguntou novamente
filho de Japão, dizendo incontinente :
Ele aqui não está...seguiu mais par adiante,
Porém...se algum recado ou coisa semelhante
Quiseres que eu lhe dê, breve irei encontrá-lo.
Descreve-me o semblante daquele de quem falo
E prometo cumprir teu desejo inocente.
É fácil conhecê-lo -responde ela, contente-
É alto o meu papai, é forte...musculoso,
Tem como eu tenho, azuis os olhos, e é formoso.
seu rosto barbado...é loiro o seu cabelo,
Também da cor do meu, como bem podes vê-lo.
E do seio tirando um pequeno retrato
Acrescentou a rir : - Façamos um contrato.
Eu dou-te esse papai, para que não se esqueças,
E vendo o verdadeiro, breve o reconheças.
Chama-se Ivan...
Pois bem ! - disse o soldado , que o retrato guardou-
Dá-me agora o recado
Que eu hei de procurar o teu papai, e em breve...
-Mas não é um recado que eu quero que leves,
Replica-lhe a pequena.
Então... dize o que queres
E eu prometo fazer o que tu disseres.
Pois bem ! - Lina responde - É este o meu desejo :
Chegue junto a papai e entregue-lhe este beijo.
E assim dizendo, salta ao colo do soldado,
A beijar-lhe o semblante em lágrimas banhado.
-Um bravo, que não chora ante a horrível matança,
Chorou ao receber o beijo da criança !
E como dos canhões se ouvisse a voz bramindo,
Lina foi-se a correr, por onde havia vindo.

Durante a noite inteira o fogo não cessara.
A tropa do Micado aos poucos avançara
Num assalto feroz ao inimigo em frente.
Cada qual mais revel...cada qual mais valente.
Até que da vitória as trombetas ecoaram
E as bandeiras do Sol Nascente tremularam
Sobre a trincheira Russa, á força conquistada.
Todo o céu se aclarara. Á rósea madrugada
Pelos campos em fora, os mortos e os feridos,
Eram, sem distinção, por todos recolhidos.
Quando, ao ver de um soldado a face descorada,
Pendida dobre o peito. A blusa ensanguentada,
Olha o retrato e vê perfeita semelhança.
Era um russo ferido ! o Japonês o chama :
-Ivan !...Ivan !...
-Que me queres ? o moribundo exclama
Surpreso por ouvir seu nome proferido
Por lábios inimigos.
-Eu trago escondido, um beijo que te envia a tua filha Lina
Ela mesma o daria se pudesse vir cá..
Não podendo, guardei-o, paras agora depor de tua face em meio.

E ao dizer isto, calmo, o filho do Nascente
Beija a fronte do russo e o abraça ternamente
** - 
NOTA:
Compilei este trabalho em março de l965 de um velho“in-fólio” carcomido, da antiga biblioteca municipal de Santo André. O trabalho, certamente é uma tradução, de onde depreendia ser uma autoria de Eustórgio Wanderley, (pelo o estado de danificação do exemplar). Tentei ser fiel ao Arquivo, até onde possível, mas...dado que ele vai para o lixo, após a minha morte, além de ser material para entupir estante, já que ninguém os lê, deixo aqui, aberto pra você, se puder, afirmar da real autoria desta peça maravilhosa, da Poesia Universal.
o Corvo .

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

ABISMO DO SILÊNCIO


Existe um lugar
**Xamã Ererê
Onde tudo faz sentido e se faz sentido.
Onde habita a coerência, onde você
Reencontra a sua singularidade,
Reconhece a sua divindade,
Sente o pulsar do universo
E o percebe como a perfeita projeção
De outras infinitas individualidades.
Existe um lugar
Onde você se aproxima de suas sensações,
De seus sentimentos,
Onde você se visita em outros tempos,
Em outros lugares
E aprende que tempo e espaço
Não são indevassáveis janelas
Que impedem a visão da transcendência.
Existe um lugar
Onde você evolui a consciência
De que viver está além de existir.
Existe um lugar
Onde você constata que
Para viver é preciso prosseguir,
Urgente construir
E essencial sentir.
Esse lugar
É o intenso e precioso silêncio...
Em você..."
Arquivo Amaro Castro Corvo.2014.Out.26

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Barcos de papel
Guilherme de Almeida
 
Quando a chuva cessava e um vento frio
Franzia a tarde tímida e lavada,
Eu saía a brincar pela calçada
Nos meus tempos felizes de menino
 
Fazia de papel toda uma armada
E, estendendo meu braço pequenino
Eu soltava os barquinhos sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...
 
Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
Que não são barcos de ouro meus ideais
Que são feitos de papel,tal como aqueles
 
Perfeitamente, exatamente iguais...
Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!

domingo, 11 de novembro de 2012

A NOITE...É A NOITE!
Moysés Amaro Dalva

A noite...é a noite!
Em vão poluída,
Sem luas de bronze,
Sem flores fanadas,
Sem perfumes sutis,
Sem beijos, sem cor...
Sem sonhos devassos
Ou sonhos de amor,
A noite, é a noite!...
Perdida em desditas,
Em mil sofrimentos,
Em tristes lamentos,
Nos uivos dos ventos,
Nas vozes perdidas
Clamando vinditas,
Em seus descaminhos
Sem Deus e sem fé,
A noite...é a noite!...
Não perde a poesia,
Não perde a ternura,
Não prende os boêmios,
Não coloca em cadeia
As sexi-apples,
Não perde a ilusão.
A noite...é a noite!

quarta-feira, 18 de julho de 2012


SE...
Rudyard KiSE...
Rudyard Kippling - versão livre de  Felix Bermuda
Se podes conservar o teu bom senso e a calma,
Num mundo a delirar, pra quem o louco és tu;

Se podes crer em ti com toda a força d’alma
Quando ninguém te crê. Se vais faminto e nu
Trilhando sem revolta um rumo solitário;

Se à torva intolerância, a negra incompreensão
Tu podes responder, subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia,
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
Mas sem a afetação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor...

Se podes esperar, sem fatigar a esp’rança,
Sonhar... Mas conservar-te acima do teu sonho,
Fazer do Pensamento um Arco d’Aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
Triunfo e a derrota... Eternos Impostores!
Se podes ver o Bem oculto em todo o Mal,
E resignar -sorrindo- o Amor dos teus amores...
Se podes resistir à raiva ou à Vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega, eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E calando em ti mesmo a mágoa de perderes
Voltas a palmilhar  todo o caminho andado...
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo;
E sem dizer palavras... E sem um termo agreste
Voltares ao princípio, a construir de novo...

Se podes obrigar o coração e os músculos
A renovar o esforço, a muito vacilante,
Quando já no teu corpo, afogado em crepúsculo
Só existe a vontade a comandar: “Avante!”

Se  vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
Ou vivendo entre os reis, conservas a humildade;

Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti, à luz da Eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
De um minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espalhe em séculos fecundos...

Então, ó Ser Sublime, o mundo inteiro é teu!
Já  dominaste os Reis, os Tempos e os Espaços,
Mas inda para além um novo Sol rompeu
Abrindo o Infinito ao rumo dos teus passos!

Pairando numa esfera acima desses planos,
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já não houver em ti que seja Humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um Homem!

 Arquivo Amaro Castro Corvo
São Paulo, l6 de maio de 1964

São Paulo, l6 de maio de 1964